“VÁ PARA CASA, PAI”A comovente carta de Dinis, de 4 anos, filho de Diogo Jota, que fez chorar Portugal inteiro e reavivou a esperança de uma nação

Par Marta Costa, Porto – 29 de novembro de 2025
Cinco meses e vinte e cinco dias. Foi quanto tempo passou desde aquele terrível 3 de julho de 2025, quando Diogo Jota e o irmão André perderam a vida num acidente de viação na A-52, em Espanha. Todo o Portugal ainda chorava.
As homenagens choviam: Anfield iluminado com as cores do Porto, uma estátua inaugurada em Gondomar, documentários da Netflix em repetição. Mas ontem de manhã, às 9h17, um pequeno envelope branco mudou tudo.
Foi colocado na recepção do Museu do FC Porto por uma mão trémula: a de Rute Cardoso, viúva de Diogo, acompanhada pelo filho mais velho, Dinis, de 4 anos.
No envelope, escrita infantil e desajeitada, traçada com marcador azul: “Para o pai do céu. Do Dinis. Com amor. »
Interior: uma folha A4 dobrada em quatro, coberta com um desenho multicolorido e uma carta de treze palavras, escrita com a ajuda da mãe, mas ditada pelo próprio Dinis.
O desenho é simples, inocente: uma casa amarela com telhado vermelho, um sol sorridente que lança raios como bolas de futebol, um homenzinho com a camisa 20 do Liverpool e três homenzinhos segurando sua mão – a mãe, Duarte (2 anos) e Mafalda (10 meses). Abaixo, em letras maiúsculas inclinadas:
“VÁ PARA CASA PAI. ESPERAMOS POR TI TODAS AS NOITES. MANTEMOS O TEU LUGAR À MESA. TE AMO MAIS DO QUE NINGUÉM. Dinis »
E no canto inferior direito, uma marca de mão vermelha, feita com tinta a dedo, como uma promessa eterna.
Rute Cardoso, 28 anos, grávida do quarto filho na altura do acidente, explicou à RTP, em lágrimas, porque deixou Dinis enviar esta carta ao museu:
“Todas as noites, desde o dia em que o Diogo saiu, o Dinis põe a mesa para cinco pessoas. Põe o prato do pai na mesa, deita água no seu copo preferido, até põe um garfo ao lado e espera.
Como quando ia jogar na Inglaterra.” Ontem ele quis escrever sozinho. Escolheu as palavras sozinho, sentado à mesa da cozinha, com seu lápis preferido. Ele me disse: “Mãe, se eu escrever para o papai, ele voltará para casa”. Eu não pude recusar. »

O museu imediatamente emoldurou a carta e a exibiu na vitrine central, ao lado da camisa ensanguentada de Diogo usada na última partida pelo Liverpool contra o Manchester City. Em menos de duas horas, milhares de pessoas reuniram-se em frente aos portões.
Velas brancas, camisolas com o número 20, leões empalhados (símbolo do Porto), rosas vermelhas e amarelas – as cores do clube. Um homem de 82 anos, ex-funcionário de um estaleiro, postou uma foto sua quando criança com Jota, aos 10 anos: “Ele me deu a bola dele naquele dia.
Eu queria retribuir o favor. »
Às 14h00, o FC Porto anunciou que a carta ficaria exposta “até que o Dinis tenha idade suficiente para a recuperar ele próprio”.
O clube criou também o Fundo Dinis Jota: todos os golos marcados pelos Dragões em 2025-2026 serão dedicados a Dinis, sendo 10 mil euros doados à oncologia pediátrica do Hospital de São João – causa que Diogo apoiou secretamente durante anos, depois de perder um primo devido ao cancro.
Às 16h47, Cristiano Ronaldo, amigo próximo de Diogo, publicou a carta no Instagram, vista por 620 milhões de pessoas em poucas horas. Legenda comovente: “Dinis, seu pai voltou para casa. Está em cada bola que tocamos, em cada gol que comemoramos, em cada abraço que damos aos nossos filhos.
Ele está orgulhoso de você. Todos nós estamos. Força, irmãozinho. CR7. »
Às 18 horas, o Liverpool iluminou o estádio de Anfield em azul e branco, as cores do Porto, e transmitiu a voz de Dinis a ler a sua carta para o estádio vazio.
Os actuais jogadores, liderados por Mohamed Salah e Virgil van Dijk, colocaram 20 rosas vermelhas no círculo central, formando o número 20. Salah disse: “Diogo era mais que um companheiro de equipa. Ele era um irmão. Esta carta lembra-nos porque jogamos: pelas famílias que nos esperam em casa. »
Rute, com a voz quebrada mas cheia de força, falou diante das câmeras pela primeira vez em meses:
“O Diogo era o pilar da nossa família. Chegava sempre a casa, mesmo depois das partidas mais difíceis, para beijar os filhos e dizer “O papá está aqui”. O Dinis ainda não compreende bem. Mas sabe que o papá o amava mais do que tudo.
Esta carta é o seu grito do coração. E sei que o Diogo ouve, onde quer que esteja. Obrigado a todos de Portugal pelo carinho. Vocês carregam-nos. »

Esta noite, milhares de famílias portuguesas fizeram o mesmo: acrescentaram uma cadeira vazia à mesa, um prato extra e leram em voz alta a carta de Dinis durante o jantar.
No Porto, uma vigília à luz de velas reuniu 5 mil pessoas em frente ao estádio do Dragão, com crianças segurando desenhos semelhantes. Um menino de 6 anos disse à câmera: “Quero que meu pai sempre volte para casa também”.
Em Lisboa, o Benfica – rival histórico – prestou homenagem ao projetar a carta no seu ecrã gigante. Até os políticos se envolveram: o primeiro-ministro Luís Montenegro tuitou: “Dinis, a tua mensagem une-nos a todos. Diogo entrou para sempre nos nossos corações. »
Os psicólogos concordam: esta carta é um grito de puro amor, que ajuda milhões de famílias enlutadas. A especialista em psiquiatria infantil, Dra. Ana Silva, explica: “Aos 4 anos, as crianças expressam a sua falta através de gestos concretos, como um lugar à mesa.
O Dinis mostra-nos que o amor transcende a morte. »
Amanhã, Rute levará Dinis ao museu para ver a sua carta emoldurada. Ela lhe dirá: “Papai recebeu, meu tesouro. E ele sorri do céu. »
Porque às vezes são as crianças que nos lembram a verdade mais simples: o amor não conhece a ausência. Ele apenas conhece a espera. E um lugar vazio à mesa.
Algures, acima das nuvens, Diogo Jota sorri. Seu lugar está guardado. Para sempre.